|
28/01/2004 22:28
Olá,
Sei que já se passaram dois dias desde que ocorreu o Globo de Ouro, mas eu não poderia deixar de fazer algum comentário sobre o evento. Na verdade, como nos anos anteriores, eu tinha decidido não assistir, afinal eu estar acordada ou dormindo não modificaria os resultados pré-estabelecidos, entretanto resolvi ver o inicio. Posso dizer que só pelo inicio achei o evento superdesorganizado, pois não havia uma ordem coerente para apresentar as categorias concorrentes. Ainda assim, perseverei assistindo, já que havia filmes que eu tinha adorado nas três categorias de melhor filme (drama, comédia/musical, e estrangeiro). Confesso que até comecei a me empolgar com a premiação ao ver artistas como Meryl Streep e Al Pacino recebendo a estatueta pela milésima vez, bem como ao ver Sean Penn e Tim Robbins tendo seus trabalhos reconhecidos pelo excelente Sobre meninos e lobos. Agora, é obvio que quase morri de tédio ao assistir Michael Douglas recebendo um prêmio pelo conjunto de sua carreira, que, lógico, não pude deixar de me perguntar : qual carreira mesmo? Claro, que adorei ver o diretor de O Senhor dos Anéis O Retorno do Rei recebendo a estatueta de melhor filme-drama, e lembrando-se de agradecer ao mestre Tolkien pela brilhante obra, sem a qual não existiria o filme. Fiquei triste ao perceber que nem Procurando Nemo (que é um filme adorável) e nem o encantador Simplesmente Amor conseguiram ganhar o prêmio de melhor filme comédia/musical, mas me consolei ao recordar que era um milagre o filme Inglês ter sido indicado, e gostei da idéia de pensar que, provavelmente, os americanos não foram capazes de compreender as alfinetas, presentes neste filme, que eram direcionadas a sua pátria. Contudo, o que realmente me revoltou foi ver os MARAVILHOSOS Adeus, Lenin e Invasões Bárbaras perderem para um filme do Afeganistão. Como não vi tal filme, posso até estar falando besteira, mas a impressão que tive foi que esta premiação significava: olha, nós americanos queremos pedir desculpas por vocês terem perdido tantos parentes e amigos em uma guerra que não era de vocês, mas como somos legais e justos, vamos dar esta estatueta para compensar a nossa atitude repugnante! É capaz de eu estar parecendo ser um pouco radical demais, todavia tanto Adeus, Lênin como Invasões Bárbaras conseguiram me dar uma noção completamente nova sobre Capitalismo e Socialismo, procurando mostrar que não há uma idéia correta. Posso resumir o que os dois filmes falam citando um trecho do Mundo de Sofia (Jostein Gaarder), baseado no pensamento do filósofo Hegel: Quem se dedica ao estudo sério da história percebe que geralmente um novo pensamento surge com base em outro formulado anteriormente. Uma vez formulado, porém, o novo pensamento será inevitavelmente contradito por outro. Aparecem, assim, duas formas de pensar que se opõem e entre elas há uma tensão. Essa tensão é quebrada quando um terceiro pensamento é formulado, dentro do qual se acomoda o que havia de melhor nos dois pontos de vista precedentes. Para mim, ambos os filmes tentam apresentar a possibilidade de criação deste tal terceiro pensamento, destacando-se dos demais filmes sobre o assunto, que procuram simplesmente criticar o capitalismo ou o socialismo, sem no entanto buscar compreender o verdadeiro significado desses dois pensamentos. Em especial, Invasões Bárbaras consegue ir ainda mais além dessa discussão político-social, conseguindo mergulhar profundamente na natureza humana, mostrando tanto o medo da morte que domina o ser humano, como o próprio medo da vida. Expondo, ainda, o fato de não podermos modificar aquilo que já foi vivido, mas deixando bem claro que, ao menos, é possível escolhermos a maneira que morreremos. Enfim, as implicações filosóficas que os diálogos do filme nos levariam seriam impossíveis de colocar aqui, neste medíocre blog (além do próprio fato de que eu não conseguiria escrever sobre elas). Contudo, vou tentar me confortar ao lembrar que eu achava impossível Invasões Bárbaras receber qualquer tipo de indicação em um evento comercial como o Globo de Ouro, afinal os americanos não deveriam se sentir muito contentes com um filme que diz, explicitamente, que a razão pela qual os EUA se incomodaram tanto com os acontecimentos daquele 11 de setembro é que eles representaram o inicio das invasões bárbaras no grande império americano, que até o momento só estava acostumado a atacar, mas jamais sofrer as conseqüências em seu próprio coração. Acho que dei uma viajada legal, mas eu precisava botar para fora esses pensamentos que estavam borbulhando na minha cabeça, e, por fim, só quero dizer uma coisa: que venha o Oscar...
Bjs,
Nanaz
enviada por naninha
Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)
|